Psicologia Hospitalar - artigo
SÃO
PAULO
2021
PSICOLOGIA
HOSPITALAR E O PAPEL DO PSICÓLOGO
Autora, Eliana Guedes
Declaro que sou autora deste Trabalho de Conclusão
de Curso. Declaro também que o mesmo
foi por mim elaborado e integralmente redigido, não tendo sido copiado ou
extraído, seja parcial ou integralmente, de forma ilícita de nenhuma fonte além
daquelas públicas consultadas e corretamente referenciadas ao longo do trabalho
ou daqueles cujos dados resultaram de investigações empíricas por mim
realizadas para fins de produção deste trabalho.
Assim, declaro, demonstrando minha plena consciência dos seus
efeitos civis, penais e administrativos, e assumindo total responsabilidade
caso se configure o crime de plágio ou violação aos direitos autorais.
(Consulte a 3ª Cláusula, § 4º, do Contrato de Prestação de Serviços).
RESUMO
- Psicologia, ciência da saúde que caminha para entender o ser humano de
maneira integral, como ser biopsicossocial e vai além, a quarta força da
Psicologia: Transpessoal, vai englobar o aspecto espiritual. Com isso, tal
ciência pode e deve estar nas mais variadas áreas, como: escolas, empresas,
esportes, justiça, clínicas, hospitais, etc. Se faz necessário
estar em constante ajustamento às mudanças políticas, econômicas e sociais. Tal
ajustamento permanente é positivo porque enriquece o universo da Psicologia,
ciência da Saúde, enquanto conteúdo científico e de práticas, e área de
conhecimento. Também é importante sempre saber: qual o papel do Psicólogo nas
diferentes áreas? Cada área tem suas especificidades, mas, algumas acabam por
se “confundirem”. As Psicologias da Saúde, Hospitalar e Clínica traz a tona
essa problemática: o que de fato é/faz cada uma?
elianaguedes.psicologa@gmail.com
1.
INTRODUÇÃO
O interesse por este assunto surgiu através da busca de conhecimento nessa área: Psicologia
da Saúde - Psicologia Hospitalar e da vontade de se aprofundar na área da saúde
integral. Afinal, o que é Psicologia da Saúde? E a
Psicologia Hospitalar? Quais suas características? Semelhanças,
diferenças ... A Psicologia Hospitalar seria uma ramificação da Psicologia da
Saúde? E, a Psicologia Clínica? Quais distinções entre a área clínica e hospitalar? E qual o papel
do Psicólogo dentro do Hospital? Enfim, haviam muitos questionamentos e a busca
pelo entendimento veio através de pesquisas e leituras.
A pesquisa foi feita através da revisão
bibliográfica e através de artigos disponibilizados pela internet. Este
trabalho aborda, de forma sucinta, as questões acima apontadas; pois tal tema é
bastante complexo e rico em detalhes e informações.
A Psicologia Hospitalar é
relativamente recente no Brasil e, segundo CASTRO, ELISA KERN e BORNHOLDT,
ELLEN, é inexistente em outros países. Já a Psicologia da Saúde está presente
em diversos países e tem crescido e ganhado cada vez mais importância. A APA
(2010) demarca o trabalho do psicólogo em hospitais como um dos possíveis
locais de atuação do psicólogo da saúde; aliás, essa é uma diferença entre a
Psicologia Clínica e a Hospitalar: o local/ “setting terapêutico". Além do
local e talvez por conta do local, muita coisa muda; é outra “configuração”.
Fato é que existe uma
crescente busca pelo entendimento sobre saúde e doença em diversos contextos,
inclusive no âmbito hospitalar e a Psicologia tem muito a oferecer.
2.
PSICOLOGIA DA SAÚDE
Segundo RIBEIRO, a Psicologia
da Saúde emergiu na década de 70 do século passado.
Formalmente, a Psicologia da Saúde começa em 1973, nos
Estados Unidos da América. Neste país, no seio da American Psychological Association (APA) foi criada uma Task Force on Health Research, com o
intuito de estudar "a natureza e a extensão da contribuição dos psicólogos
para a investigação básica e aplicada dos aspectos comportamentais nas doenças
físicas e na manutenção da saúde" (APA TASK FORCE ON HEALTH RESEARCH, 1976, p.263). Em 1976 esta Task
Force publica um relatório sobre as relações entre a Psicologia e os
contextos tradicionais de saúde e doenças, propondo orientações doutrinárias.
Há uma definição da
Psicologia da Saúde, de MATARAZZO (1980, 1982) que a Psicologia da Saúde
consiste no domínio da Psicologia que recorre aos conhecimentos provenientes
das diversas áreas da Psicologia com vista à promoção e proteção da saúde, à
prevenção e tratamento das doenças e identificação da etiologia e diagnósticos
relacionados com a saúde, com as doenças e disfunções associadas, à análise e
melhoria do sistema de cuidados de saúde, e ao aperfeiçoamento da política de
saúde. Outra definição, anterior a essa: 1979, foi de Stone, que num dos primeiros livros que tinha
no título a expressão: “Psicologia da Saúde”, dizendo que esta é qualquer
aplicação científica ou profissional de conceitos e métodos psicológicos, a
todas as situações próprias do campo da saúde, não apenas nos cuidados de saúde
mas também na saúde pública, educação para a saúde, planificação da saúde,
financiamento, legislação, etc.
A Conferência de Arden House
que discutiu a formação e a prática da Psicologia da Saúde adotou uma
declaração de consenso, pretendendo esclarecer a definição anterior, onde a
Psicologia da Saúde é um campo genérico da Psicologia, com seu corpo próprio de
conhecimento e teoria, que se diferencia de outros
campos da psicologia (OLBRISCH; WEISS; STONE; SCHWARTZ, 1985, p. 1038). De
algum modo, esta definição está em contradição com a definição de Matarazzo; no sentido em que diz que tem um corpo próprio de teoria e
conhecimento que se diferencia dos outros campos da Psicologia, onde
anteriormente dizia que recorria aos conhecimentos provenientes das outras
áreas da Psicologia.
Segundo DE
MARCO (2003), o termo “Psicologia da Saúde” seria utilizado para denominar o
conjunto de atividades exercidas por profissionais da área de psicologia no
campo da saúde, não somente nas formas de assistência e pesquisa, mas também na
forma de ensino. Já TRINDADE & TEIXEIRA (2002) a finalidade principal da
Psicologia da Saúde é compreender como é possível, através de intervenções
psicológicas, contribuir para a melhoria do bem-estar dos indivíduos e das
comunidades.
A Psicologia da Saúde parece
que veio com a perspectiva de ir além da Saúde Mental. E, por que será que isso
aconteceu?
Segundo Millon (1982), desde os primórdios da Psicologia,
havia exemplos de colaboração entre os domínios médicos e psicológicos: no
final do século XIX, são conhecidas as colaborações de Wundt com Kraepelin, nos
EUA, e de Heymans com Weirsma, na Europa, embora estas colaborações focassem
primordialmente as psicopatologias. Já dentro do século XX, esboçaram-se
relações institucionais entre a Psicologia e a Medicina: em 1911, na reunião
anual da American Psychological
Association, houve encontros formais entre psicólogos e médicos com o
intuito de discutir a participação dos profissionais de Psicologia nos
contextos tradicionais de saúde e doenças. Apesar destas tentativas, as
relações entre os dois domínios mantiveram-se incipientes até ao final da
década de 70, concluindo o relatório da APA
task force on health research (1976), que os psicólogos americanos não se
sentiam atraídos pelas áreas das doenças físicas e da saúde.
Subitamente, na década de 80, verifica-se uma explosão do
interesse dos psicólogos pela área. O que é que aconteceu que provocou tal
mudança? Belar, Deardorff e Kelly (1987) enumeram algumas das razões possíveis
para este interesse:
a) Fracasso do modelo biomédico na explicação das doenças
e da saúde;
b) Crescimento da preocupação com a qualidade de vida e
com a prevenção das doenças;
c) Mudança da atenção dos profissionais de saúde das
doenças infecciosas para as doenças crônicas, com o reconhecimento do papel
fundamental que o estilo de vida tinha naquelas;
d) Maturidade da investigação nas ciências
comportamentais;
e) Aumento dos custos dos cuidados de saúde e procura de
alternativas aos cuidados de saúde tradicionais.
Então, além de
ser um campo relativamente novo, é complexo e necessário pois, vai além da
saúde mental, trata-se da saúde integral. Envolve estilo de vida (alimentação,
sono, atividades físicas, etc).
Nas últimas décadas, pesquisas realizadas têm demonstrado
que o comportamento e o estilo de vida dos indivíduos podem ter um impacto
significativo sobre o desenvolvimento ou a exacerbação das doenças. Muitos
comportamentos que auxiliam na promoção e na manutenção da saúde são geralmente
desenvolvidos durante a infância e a adolescência, como hábitos alimentares
saudáveis e prática de atividades físicas. Como especialistas em comportamento
e saúde, os psicólogos têm desenvolvido e implantado programas que visam o
aumento da frequência de comportamentos saudáveis (Miyazaki, Domingos &
Caballo, 2001).
Enfim, a
Psicologia da Saúde, segundo REMOR (1999) com base no modelo biopsicossocial,
utiliza os conhecimentos das ciências biomédicas, da Psicologia Clínica e da
Psicologia Social-comunitária.
Esse primeiro
tópico relacionado com a Psicologia da Saúde é fundamental para entendermos,
diferenciarmos e adentrarmos no tema: Psicologia Hospitalar.
3.
PSICOLOGIA HOSPITALAR E O PAPEL DO PSICÓLOGO
Segundo SIMONETTI (2004) a
Psicologia Hospitalar tem como objetivo a elaboração simbólica do adoecimento
e, com isso, pretende ajudar o paciente a atravessar a experiência do
adoecimento através da sua subjetividade.
Facilmente se presume que o psicólogo passou a ser bem visto no contexto
hospitalar, nas enfermarias e nos ambulatórios quando sua atenção voltou-se
para a humanização, fazendo compreender a relação dos profissionais da saúde
com o paciente e com os familiares. Estudos apontam que buscar informações
sobre a história do paciente é algo indispensável em sua atuação, pois é o
psicólogo quem pode oferecer uma escuta, uma ajuda psicológica e oferecer a
oportunidade de confronto do paciente com sua angústia e sofrimento na fase da
hospitalização, fase esta que gera muitas crises (MOTA, MARTINS e VÉRAS, 2006)
De acordo com o Conselho
Federal de Psicologia (2010), o psicólogo especialista em Psicologia
Hospitalar, atua em Instituições de saúde participando da prestação de serviços
de nível secundário e terciário da atenção à saúde, realizando atividades como:
atendimento psicoterapêutico; grupos psicoterapêuticos; grupos de
psicoprofilaxia; atendimentos em ambulatório e unidade de terapia intensiva;
pronto atendimento; enfermarias em geral; psicomotricidade no contexto
hospitalar; avaliação diagnóstica; psicodiagnóstico; consultoria e
interconsultoria. Ainda segundo o CFP, o psicólogo oferece e desenvolve
atividades em diferentes níveis de tratamento, tendo como principal tarefa a
avaliação e acompanhamento de intercorrências psíquicas dos pacientes que estão
ou serão submetidos a procedimentos médicos, visando basicamente a promoção
e/ou a recuperação da saúde física e mental. Promove intervenções direcionadas
à relação médico/paciente, paciente/família, paciente/paciente e do paciente em
relação ao processo do adoecer, hospitalização e repercussões emocionais que
emergem neste processo. Além de atuar em instituições de saúde, atua também em
instituições de ensino superior e/ou centros de estudo e de pesquisa, visando o
aperfeiçoamento ou a especialização de profissionais em sua área de
competência, ou a complementação da formação de outros profissionais de saúde
de nível médio ou superior, incluindo pós-graduação lato e stricto sensu
(CFP, 2010).
O termo Psicologia Hospitalar tem sido usado no Brasil para designar o
trabalho de psicólogos em hospitais. Essa denominação é inexistente em outros
países além do Brasil (Sebastiani, 2003; Yanamoto, Trindade & Oliveira,
2002; Tonetto & Gomes, 2005). Yanamoto, Trindade e Oliveira (2002) e
Chiattone (2000) explicam que o termo Psicologia Hospitalar é inadequado por
pertencer à lógica que toma como referência o local para determinar as áreas de
atuação, e não prioritariamente as atividades desenvolvidas. Assim, o termo
denomina um local de atuação e não um campo de saber. A APA (2010) demarca o
trabalho do psicólogo em hospitais como um dos possíveis locais de atuação do
psicólogo da saúde. Chiattone (2000) refere que a Psicologia Hospitalar é
apenas uma estratégia de atuação em Psicologia da Saúde, e que, portanto,
deveria ser denominada “Psicologia no contexto hospitalar”.
RODRIGUES-MARIN (2003)
sintetiza as seis tarefas básicas do psicólogo que trabalha em hospital: 1)
função de coordenação: relativa às atividades com os funcionários do hospital;
2) função de ajuda à adaptação: em que o psicólogo intervém na qualidade do processo
de adaptação e recuperação do paciente internado; 3) função de interconsulta:
atua como consultor, ajudando outros profissionais a lidarem com o paciente; 4)
função de enlace: intervenção, através do delineamento e execução de programas
junto com outros profissionais, para modificar ou instalar comportamentos
adequados dos pacientes; 5) função assistencial direta: atua diretamente com o
paciente, e 6) função de gestão de recursos humanos: para aprimorar os serviços
dos profissionais da organização.
Psicologia Hospitalar x Psicologia Clínica
A principal diferença é o local de atendimento e
isso muda muita coisa, aliás, transforma o atendimento; ou seja, é outra
configuração. “O setting
terapêutico na realidade hospitalar é peculiar: o psicólogo deve adaptar sua
atuação visto que os espaços e condições hospitalares são muito diferentes do setting da atuação clínica em
consultório'' (Ismael, 2005).
A abordagem do Psicólogo com o paciente e
vice-versa também é diferente; por exemplo: na Psicologia Clínica o paciente
vai até o Psicólogo enquanto na Psicologia Hospitalar, o Psicólogo vai até o
paciente; o tempo de intervenção no Hospital, normalmente, será breve. Há
também o fato do Psicólogo Hospitalar trabalhar com equipe multidisciplinar, o
paciente é atendido por diversos profissionais; enquanto no atendimento do
Psicólogo Clínico é mais individualizado. A família do paciente hospitalizado é
presente, enquanto no atendimento clínico individual isso não acontece.
A Psicologia Clínica centra sua atuação em diversos contextos e
problemáticas em saúde mental, enquanto a Psicologia da Saúde dá ênfase,
principalmente, aos aspectos físicos da saúde e da doença (Kerbauy, 2002).
O
especialista em Psicologia Clínica (CRP, 2003) também atua na área da saúde em
diferentes contextos, além do consultório particular, inclusive em hospitais,
unidades psiquiátricas, programas de atenção primária, postos de saúde etc.,
prevenindo doenças no âmbito primário, secundário e terciário. Como se pode
observar, esse conceito, de fato, está intimamente associado ao que é
Psicologia da Saúde.
A Psicologia tem muito a
contribuir e avançar. O Ser Humano necessita ser entendido e cuidado de forma
integral. “É melhor conhecer o paciente que
tem a doença”, dizia Hipócrates, “do que conhecer a doença que o paciente tem”
(citado em Wesley, 2003). E,
a possibilidade da Psicologia estar aliada com outras
especialidades/disciplinas é extremamente benéfico; pois isso gera troca de
ideias e consequentemente expande o entendimento da saúde, da doença e do ser
humano.
Compreender e ampliar o
entendimento sobre o ser humano: por exemplo, como ele age e reage diante das
situações que lhe aparecem: o adoecimento; a disposição e vontade de ser
curado; seus recursos internos próprios para lidar com momentos imprevisíveis e
difíceis; sua relação com seus entes queridos; seu poder de transformação e
transmutação. A Psicologia pode promover isso e, talvez, esse seja o grande
trunfo da Psicologia!
A Psicologia colabora com o estudo da subjetividade: é essa a sua forma
particular, específica de contribuição para a compreensão da totalidade da vida
humana, conforme BOCK A; T. M; FURTADO T (2018).
É justamente através disso
que podemos evoluir no sentido de cuidarmos melhor: “do si mesmo e do outro”,
seja em qualquer área ou abordagem da Psicologia; o propósito é e será sempre o
caminho para a descoberta, do despertar. Afinal, quando estamos munidos de mais
informações, somos mais poderosos, fortes e podemos lidar com diversas
situações.
5.
REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ALMEIDA, Raquel Ayres e MALAGRIS, Lucia Emmanoel
Novaes, A prática da
psicologia da saúde.
Ano 2011.
ALVES, RF., org. Psicologia da saúde: teoria,
intervenção e pesquisa [online]. Campina Grande: EDUEPB, 2011. 345 p. ISBN
978-85-7879-192-6. Available
from SciELO Books <http://books.scielo.org>.
CASTRO, Elisa Kern e BORNHOLDTLL, Ellen. Psicologia
da saúde x psicologia hospitalar: definições e possibilidades de inserção
profissional. Ano 2004.
MEIADO, Adriana Campos e FADINI, João Paulo, O
papel do Psicólogo Hospitalar na atualidade: um estudo investigativo. Ano 2014.
MERCES Ana B., TEIXEIRA, Maria; FURTADO, Odair. Psicologias
uma introdução ao estudo da Psicologia. Ano 2018.
STRAUB, Richard O., Psicologia da Saúde. Uma
abordagem biopsicossocial. ARTMED. Ano 2014.
TONETTO, A. M., & Gomes, W. B. Prática
psicológica em hospitais: demandas e intervenções. Ano 2005.